A tradiçom que vai d’O ouro do Rin de Wagner e Metrópole de Lang, a tradiçom na qual o processo produtivo acontece baixo terra, em covas escuras, culmina hoje em milhões de anónimos trabalhadores a suar em fábricas do terceiro mundo, dos gulags chineses às linhas de montagem de Indonésia ou o Brasil – na sua invisibilidade, o Ocidente pode conceder-se o luxo de balbucir a respeito da “classe operária em vias de desapariçom”. Mas o fulcral nesta tradiçom é a equaçom de trabalho com crime, a ideia de que o trabalho, o trabalho pesado, é na sua origem uma actividade indecente que deve ser afastada do olho público. (…)
O único lugar dos filmes de Hollywood em que pode ver-se o processo de produçom em toda a sua intensidade é quando o herói penetra no território secreto do capo criminal e localiza aí o lugar do trabalho pesado (destilando e empacotando as drogas, construindo o foguete que destruirá Nova Iorque…). Quando num filme de James Bond, o capo criminal, após capturar Bond o leva num tour pola sua fábrica ilegal, nom é o mais perto que chega Hollywood a uma orgulhosa apresentaçom realista socialista de como é a produçom nessa fábrica? E a funçom da intervençom de Bond é, evidentemente, fazer voar polo ar esse lugar de produçom, permitindo-nos tornar ao semblante diário de um mundo com a “classe operária em vias de desapariçom”…
Slavoj Žižek, Bem-vindo ao deserto do real
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2 Comentários
A semana que vem fará um lustro que publiquei n’A Nossa Terra (7 de Junho de 2001, Nº 990, pág.23) uma caricatura do Amancio Ortega sob uma legenda muito parecida com o título deste post: “Assi falou ZARA Trust S.A.”
Pois nom o sabia (ou nom me lembrava), mas está tudo inventado! Todos somos Anxo Quintana! Ou era Ana Rosa?