Preconceitos

Muitos membros da confraria reintegrata temos um pequeno mito privado ou historieta que nos serve para explicar por quê escrevemos assim. Por exemplo, O’Sanma sempre conta que a epifania – aqui poderia falar-se de queda do cavalo, ou de madalena de Proust, ou de pílula de Matrix segundo as (p)referências culturais de cada quem – aconteceu quando um pescador do Rio Grande do Sul lhe contou que ía apanhar minhoca. “Uma língua que chama minhocas às minhocas nom pode ser outra língua”, pensou o meu colega.

O meu caso tem um cenário muito menos exótico. Foi há vários anos, no El Corte Inglés de Vigo. Ignorando a célebre (e falaciosa) máxima comercial de que “el cliente siempre tiene la razón”, a moça que me atendia teimava em falar em espanhol quando eu me dirigia a ela em galego. A cousa é tam habitual que nem sequer me irrita particularmente. Só me molestou um pouco quando descobrim que essa mesma funcionária utilizava um galego mais que correcto com outro cliente, um senhor de bigode que era a todas luzes… português.

Este incidente estimulou-me a realizar um mergulho intensivo na cultura lusófona: visitas ao Somartis de Viana do Castelo, poemas de Álvaro de Campos, pimbalhadas de Quim Barreiros, telejornais da RTPi, etc. Ao cabo de três meses já me encontrava preparado para dirigir-me a essa mesma empregada excessivamente maqueada (que seguramente seria de Teis ou Lavadores) e espetar-lhe com perfeito sotaque de Lisboa:

Eu: Ó menina, onde é q’fica a casa de banho, se fash favor?

Ela (com ar despectivo): Ao fondo à dereita.

Esta pequena vitória convenceu-me definitivamente de que qualquer cousa estava errada naquela história da língua que nos contavam no bacharelato. O galego e o português nom se separárom na Idade Média. Ao contrário, continuam juntos e bem juntos ao fundo à direita de algum recóndito hemisfério cerebral, lá onde guardamos os piores preconceitos.

PS: Este post vai dedicado a todos os portugas que já nom comprarám no El Corte Inglés de Vigo porque lhes abrem um em Vila Nova de Gaia.

14 Comments

  1. kate
    Posted Maio 18, 2006 at 4:09 pm | Permalink

    hahahha, non tes prezo como analista sociolóxico-lingüístico. A que non hai ovos de pedir un xeado no Macdonalds de Santiago, gravalo e penduralo aquí, a ver que pasa…?
    Bicos

  2. Posted Maio 18, 2006 at 5:52 pm | Permalink

    Vale, apostamo-nos um Mc Flurry quando queiras😉

    Bks.

  3. kate
    Posted Maio 19, 2006 at 9:00 am | Permalink

    Eu non podo Mc Flurry, que son celíaca. Cámbioo por un frango ó curry no Forest😉

  4. Posted Maio 19, 2006 at 9:27 am | Permalink

    Hei, que os gelados de McDonalds levam toda classe de porcalhadas menos glúten: acabo de mirá-lo em Celíacs de Catalunya. Contudo, se preferes o caril de frango serei flexível.😀

  5. Posted Maio 19, 2006 at 11:48 am | Permalink

    que sexa a última vez que te metes coa miña veciña de lavadores, a empregada do corte inglés “excesivamente maqueada”. bien riquiña que te es!

  6. Posted Maio 19, 2006 at 12:00 pm | Permalink

    Em honra da verdade, há que dizer que se as empregadas vam *maked up like a door* nom é culpa delas, senom dos opusinos fundadores de El Corte Inglés, a terrível familia Areces.😛

  7. Posted Maio 19, 2006 at 11:51 pm | Permalink

    Seguro que de Teis non era😉. A coñecería
    Estupenda historia.

  8. o'sanma
    Posted Maio 21, 2006 at 4:29 pm | Permalink

    Por alusões. Nunca estivem no Rio Grande do Sul. O mais perto que estivem foi no Paraná, o terceiro Estado da República Federativa do Brasil começando por abaixo (http://www.guiatur.com.br/img/mapa_brasil.jpg). Mas, com efeito, a frase (“uma língua que chama minhocas às minhocas nom pode ser outra língua”) é minha…

  9. o'sanma
    Posted Maio 21, 2006 at 4:29 pm | Permalink

    …Cheguei a esta conclussão quando, encontrando-me no Assentamento Terra Vista (MST, Bahia) na companhia de outros dous bons amigos nossos, M.P.V. e A.S.C., tivem a oportunidade de visitar um “minhocário” (http://www.mstbahia.galeon.com/tvga.htm).

    UAU! havia tempo que nom via essas fotos! A historieta é um bocado longa para “comentá-la” aqui. Talvez crie o meu próprio blog e talvez a conte alí inteira.

  10. o'sanma
    Posted Maio 21, 2006 at 4:30 pm | Permalink

    Já agora, o pescador nom era gaúcho. Era do Morraço e é o meu pai (é por ele, caçador-pescador-recolector, que a “minhoca” representa tanto para mim). Hoje, por acaso, está de aniversário (parabéns, papá!).

    Ah, e muito obrigado a ti também… “colega”😉

  11. Posted Maio 22, 2006 at 12:05 pm | Permalink

    Eu vou contar o que me pareza anque non teña moito que ver coa epifania. Lembro do que me dixo hai anos unha amiga de Lisboa, que lle repu(g)naba a actitude dos españois en Portugal, que facían coma se non entendesen o portugués, en plan “can you repeat me?”, sen o please nin nada. Supoño que a cousa algo cambiaría xa.

    Sobre das miñocas, na carretera nacional Santiago-Coruña, entre Oroso e Deixebre, a altura do mesón-churrasquería Os Madeiros, hai un pseudo-posto onde hai un carteliño que pon “Véndense miñocas”. Sempre me aledo cando atopo unha na city.

    E felicidades a teu pai o´samma.

  12. o'sanma
    Posted Maio 22, 2006 at 1:48 pm | Permalink

    Muito obrigado, besbellinha, “in the name of my father” que, por acaso, é o meu mesmo “name”.

    Muito me desgosto eu cada vez que leio um cartaz dizendo “se vende bicho”. “Bicho”? Como que “bicho”!? Co fermosa que é a palavra “minhoca”! Sem dúvida a palavra mais fermosa da nossa língua (com licença da “borboleta” e de “La Coz de Galicia”).

  13. o'sanma
    Posted Maio 22, 2006 at 1:49 pm | Permalink

    Muito obrigado, besbellinha, “in the name of my father” que, por acaso, também é o meu.

    Muito me desgosto eu cada vez que leio um cartaz dizendo “se vende bicho”. “Bicho”? Como que “bicho”!? Co fermosa que é a palavra “minhoca”! Sem dúvida a palavra mais fermosa da nossa língua (com licença da “borboleta” e de “La Coz de Galicia”).

  14. Posted Abril 9, 2007 at 12:43 pm | Permalink

    Good site!!!


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