A blusa do Real Madrid

“Que estranho país, este da Galiza!” exclamou o inglês George Borrow ao atravessar as nossas remotas fronteiras em 1837. Hoje, as autoestradas e as linhas aéreas de baixo custo convertérom em banal o facto de viajar. Mas a perplexidade dos nossos visitantes continua na mesma. O post scriptum inicia uma série de entradas recolhendo os testemunhos de turistas despistados que deixam nos seus blogues as impressões que lhes produziu o nosso pequeno e misterioso país. Apertem os seus cintos de segurança, que começamos:

Galiza

Estas férias passei pela Galiza. Da cidade in”b”icta (1) até à “capital” Santiago de Compotela duas horas e meia nos separaram. À chegada, a curiosidade de quem via uma cidade nova pelo vidro do carro, apoderava-se a cada curva.

Já a pé, a cidade era fantástica. Entre cada praceta, entre cada ruela, sentia-se ainda o espírito medieval daquele lugar. Cada artista de rua, pelo espectáculo conseguido, a toda a multidão conseguia arrancar um sorriso e a moeda que tiver mais à mão. A festa continua à medida que as palavras de Galego (não é espanhol, note-se) saem da boca dos transeuntes. Se todos os caminhos vão dar a Roma, em Compostela, todos os caminhos vão dar à imponente Catedral.

Mas algo não estava bem: a minha blusa do Real Madrid, que orgulhosamente ostentava, era vítima de maus olhares e de desconfianças por parte de quase todos. Rivalidades clubistícas, pensei eu.

Na manhã seguinte algo de estranho se passava no ar. Muito rebuliço, muita inquietação, eram prenuncios de algo estava para acontecer: era o dia da Galiza. Ao virar de uma rua, deparo-me com uma enorme multidão, de todas as idades, que se manifestava pela independência da Galiza, com gritos contra o Governo, contra o envio de tropas para o Iraque e por Israel. E eis, que percebo o que se passára na noite anterior: a minha blusa de Madrid tinha sido alvo de maus olhares, porque representava uma Espanha unida, uma Espanha tal como é neste momento, ou seja, uma rivalidade política.

Uma pequena confirmação foi suficiente para se perceber que a minha dedução estava certa: num loja de música, inquirindo o proprietário acerca da música “Viva la España”, o seu humor mudou completamente, e não fomos postos na rua, por termos o nosso ar de turistas inocentes.

Tudo o que se passou na Galiza, tem reprecursões nas outras províncias espanholas, apesar da mais badalada ser o País Basco, devido em parte à ETA, o principal grupo separatista basco. A situação não é facil, e o governo espanhol – e mais que isso, a Espanha – tem de resolver.

Uma das coisas que mais me marcou, foi ter percebido que nem todos os “nuestros hermanos” (2) são anti-tugas. Longe disso. Na Galiza somos vistos com respeito, pois segundo eles, conseguimos-nos “livrar” da Espanha a tempo (no tempo do rei Filipe IV de Espanha, III de Portugal). E era vê-los empunhar a bandeira Portuguesa ao lado da de Che Guevara e da do partido independentista Basco. Muito forte, hem?!

Notas:

(1) A cidade invicta é o nome perifrástico do Porto (Portugal). Ao escrevê-lo com “b”, o autor pretende remedar a fala da regiom do Douro, que do mesmo jeito que as falas galegas nom distingue entre os fonemas [b] e [v].

(2) Nuestros hermanos é uma expressom muito utilizada na comunicaçom social portuguesa para se referir aos espanhois com certo matiz irónico.

Galiza, post de Diogo no blog Educação Visual

5 Comments

  1. Posted Setembro 1, 2006 at 2:10 pm | Permalink

    Diogo levou unha impresión un tanto parcial porque lle coincidiu nun día e lugar pouco representativos do que a meirande parte dos galegos pensan, para ben ou para mal.

  2. Posted Setembro 1, 2006 at 3:08 pm | Permalink

    Eu também o penso, Mod.

  3. Posted Setembro 2, 2006 at 3:26 pm | Permalink

    Pois, o problema é que muitos portugueses que vão de férias à Galiza conseguem aí estar vários dias comunicando apenas em espanhol… e se acaso ouvem galego, muitas vezes acham que é a pessoa que está a ser simpática tentando falar português.. (já o ouvi várias vezes). Mas a culpa é dos próprios portugueses, que desconhecendo a realidade galega, são muitas vezes os primeiros a esforçarem-se por falar espanhol, quando deviam ser os primeiros a, p.ex., exigirem atendimento em galego nos estabelecimentos..

    Mas os portugueses têm sempre a mania que são bons em línguas estrangeiras, e ir de férias a outro país e falar a mesma língua seria um “turn-off”…

  4. Posted Setembro 3, 2006 at 9:53 am | Permalink

    Boss, o português que insiste em falar espanhol contra vento e maré é um caso paradigmático. Às vezes, quando lhes falas em galego, parece que estám a pensar: “Ó pá, tás a estragar as minhas exóticas férias”.😀

    Mas acho que a culpa nom é dos portugueses. A sua percepçom é normal, pois há muitos galegos que falam sempre (e também com eles) em espanhol, como apontava antes o Modesto.

  5. Posted Outubro 27, 2006 at 1:53 pm | Permalink

    Bom… eu tenho um problema com os espanhóis [problema linguístico, diga-se] que teimam não entender o que lhe digo. Trabalho com muitos madrilenos e entendo-os perfeitamente. Já eles, a mim, não conseguem compreender. O que é isto?
    Na Galiza o assunto é diferente. Embora, na minha opinião, os galegos falem já na sua maioria o espanhol, existem ainda os que teimam em falar a sua língua mãe: o galego.
    Para esses, autonomistas, independentistas ou integracionistas, o meu forte abraço.
    O nosso país é a nossa cultura. O inverso é também verdade.

    É por isso que quando me perguntam de onde sou, respondo orgulhosamente: PORTO, GALIZA.


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